O que o HIV faz com seus relacionamentos

Sempre fui uma pessoa de espírito livre. Conhecer caras novos apenas pela experiência de conhecer alguém novo, com cultura e ideias diferentes. Em uma típica semana, poderia conhecer pelo menos uns três, levasse isso a sexo ou não.

Foi esse espírito também, que me fez namorar as três vezes que namorei. A ideia de levar essa filosofia de vida adiante e construir alguma coisa com meu parceiro…

Sempre me orgulhei disso, de ser desapegado, tranquilo, nunca tive um relacionamento onde ciúmes esteve presente. Acredito que se uma pessoa me ama, ela estará comigo porque quer.

Desde o HIV, a vida mudou, foi como se uma parte dentro de mim tivesse morrido.

Não ia mais a tantas baladas e eventos sociais, apaguei todos os aplicativos de de pegação do meu celular, nem mesmo as pessoas com quem eu saia frequentemente ganharam uma colher de chá. Perdi o interesse afetivo e sexual completamente.

Para piorar, aumentei muito a quantidade de medicação que tomava por causa do transtorno bipolar, e são remédios pesados, alquimia perfeita para broxar.

A dúvida eterna de falar se tem HIV para alguém e quando… Assim que fizermos sexo? Depois de algum tempo? Só quando começar a namorar?

E o coração partido de quem foi infectado também. Acabo me perguntando o tempo todo se a pessoa também pode ter HIV, se ela faz sexo com camisinha frequentemente, se não possui outras doenças.

Semana passada caiu a ficha de que estou há três anos sem um relacionamento que durou mais de um mês. Vai ver amadureci e não estou mais tão preocupado com esse tipo de coisa, ou estou focando demais no trabalho. São desculpas que parecem fazer sentido, não o fato de encarar que realmente estou me afastando de qualquer relacionamento afetivo.

No nível psicológico – não sei se atenuado pelo transtorno bipolar ou não – acabeI criando uma certa barreira afetiva sem perceber. Nas raras ocasiões que fiquei com alguém, sentia que não conseguia me envolver, que estava distante, às vezes sem vontade de sequer estar lá.

Eu já tenho fobia social, mas apenas com multidões. Agora é como se a fobia tivesse mudando as caras e expandindo o pânico de multidões para casos de estar acompanhado apenas por uma pessoa também.

Quase três anos após o diagnóstico, estou voltando ao ritmo de quando não tinha HIV. Conhecendo mais pessoas, flertando muito sempre que posso, voltei a usar aplicativos de pegação e fazendo sexo ocasionalmente.

Mas uma coisa sempre passa pela minha cabeça: talvez deixei alguns anos de minha juventude para trás, apenas por causa de minhocas na cabeça.

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