A quarentena

Nos conhecemos numa festa, enquanto ele dançava todo feliz, numa alegria fora do comum em um ambiente onde todo mundo estava fazendo pose ou muito bêbado ao ponto de não ter coordenação motora às 4 da manhã. Ao seu lado, um colega de trabalho cuja intimidade ainda não era forte e outras pessoas aleatórias.

Eu estava na pior fase do meu namoro, brigando com meu então namorado quase todos os dias, me sentindo sufocado, ele tinha ido embora da balada há uma hora. Não tinha traído ele com ninguém durante cinco meses de namoro, outros homens eram invisíveis para mim, mas esse garoto foi hipnotizante.

Não era só pela beleza, sim pela alegria e toda aquela energia positiva dele.

Àquela semana estava tentando tomar o terceiro tipo de antidepressivo porque os anteriores não funcionaram. Caso você não saiba as primeiras 3-4 semanas de um tratamento com antidepressivo costumam piorar sua depressão. e quando você é bipolar – como fui descobrir depois – eles podem desencadear crises de hipomania ou piorar a depressão.

Hipomania* é quando você se sente dono do mundo, da verdade, não sente sono, fome, ou qualquer inibição. Por outro lado sua libído fica nas alturas. Além dos antidepressivos barra pesada, tinha cheirado naquela noite porque não estava bem no namoro, trabalho estava horrível, fazendo 8 matérias na faculdade e TCC ao mesmo tempo. Em resumo achava minha vida uma m*rda.

Eu tive uma crise de hipomania desencadeada por remédios e cocaína. Peguei o garoto e fomos pra minha casa. Foi uma noite ótima, mas tive que passar pela humilhação de falar pra ele que estava namorando na manhã seguinte.

Meu namoro acabou menos de um mês depois.

Não lembro exatamente os detalhes, se eu o adicionei ao Facebook ou o contrário nem quando voltamos a nos falar, só sei que desde então ficamos juntos esporadicamente por mais de sete meses. Ele continua lindo, alegre e com uma energia contagiante que não deixa ninguém ficar pra baixo.

“Amor de balada”. Sempre nos encontramos nas mesmas baladas, acabamos ficando e ele vinha pra minha casa. Isso durava até então mais de oito meses.

Meu psicólogo sempre me perguntou porque não investi, porque não insisti, porque não fui atrás. Simples, ele está sempre ocupado e eu preciso de atenção. As agendas não batem (e também não sei se ele quer, né?).

Corta de volta para os dias atuais. Ele foi uma das primeiras pessoas a saberem que eu tinha HIV, de fato a segunda dentre quem não era médico, afinal dormimos juntos no final de semana anterior a descoberta. Ele poderia estar contagiado também.

Ele foi no mesmo dia fazer o teste rápido de saliva e estava tudo ok. O susto passou e voltamos a programação normal, sai pra tomar café dois dias depois pra saber das coisas, conversa aqui e lá por mensagem. Tenta marcar algo que nunca rola.

Duas semanas depois conversando ele me fala que estava em “quarentena” de sexo, ia ficar sem fazer sexo durante um mês só pra poder fazer o teste de sangue depois da janela imunológica e ter certeza que estava tudo bem.

Chegamos a sair umas duas vezes depois dele descobrir, nunca consegui algo a mais que um selinho, um beijo decente não estava mais incluso no pacote.

Ontem eu era apenas um carinha que estava ficando aleatoriamente com ele. Hoje sou alguém que precisa ser evitado durante um tempo até refazer o teste de HIV por causa da janela imunológica.

Você não está doente, dizem. Você vai levar uma vida como qualquer outra, dizem.

Paradoxal como a pessoa mais alegre e feliz que conheço conseguiu me deixar pra baixo.

Não o culpo, ele tem todo o direito do mundo de fazer isso, talvez no lugar dele faria o mesmo. Talvez ele só não esteja mais afim mas não sabe como dizer isso (se as pessoas já tem dificuldade de dar um fora em situações normais, imagina nessa). Talvez ele só esteja com medo e precisa de informação.

Os avanços da medicina fazem com que uma pessoa com o HIV tenha uma vida relativamente normal, sem muitos efeitos colaterais e dificuldades de ser funcional. Mas de uma coisa eu posso estar certo, começar um relacionamento nunca mais será a mesma coisa.

*Quando desencadeado por drogas, tecnicamente não é um episódio de hipomania, mas serve pra ilustrar este post.

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