Quando tudo começou

Você pode pensar que tudo começa quando é infectado, a verdade é que tudo começa quando vê o resultado. É o primeiro dia do resto da sua vida.

Foi uma ensolarada quinta-feira, daquelas que você acorda feliz. Dia de fazer check up, passar a manhã inteira dentro de um laboratório correndo de um lado para o outro, pálido com tantos tubos de sangue colhidos, meleca na barriga pra fazer ultrassom e sendo julgado pois sua alimentação não está lá aquelas coisas. E ainda mais julgado por ter 25 anos e estar lá. Como assim fazendo tanto exame nessa idade?

Ufa, a tortura acabou próximo do meio dia. Comemorei na minha cabeça que não precisaria mais ir a médicos durante um bom tempo (exceto psiquiatra, mas essa é outra história). Pela tarde, alguns exames sairam via internet – glícose, HDL, potássio, ferro, etc etc – tudo certo, com sempre. Deixo de lado e volto a trabalhar.

Por ser gay e morar em São Paulo, uma das coisas que mais me preocupa é a epidemia de HIV. Não posso negar que o resultado deste teste era o que me deixava mais ansioso, principalmente que o anterior já fazia um ano.
Na sexta-feira final do dia, decidi dar uma olhada pra ver se o resultado estava no ar. Nada. Quase todos, exceto o HIV estavam alí, prontos um dia depois do check up. Muito estranho, pensei. Enquanto isso, decidi baixar o laudo evolutivo, que é basicamente uma tabela comparando resultados passados com o atual. De repente, o resultado do HIV aparece alí, no meio de todos.

2013/1, não reagente. 2013/2, não reagente, 2014 não reagente, 2015, reagente (PARCIAL).

Essa era a sequência que vi na minha tela. Olhei de novo, pra ver se estava na data certa, se não estava olhando o resultado de outro exame.
Embora não conseguia ver o laudo com o resultado do exame final (depois descobri que os laboratórios seguram os resultados e só falam pessoalmente / por telefone caso for positivo) eu consegui ver o resultado através de um bug no sistema.

E ele não era nada legal. Alguns números seguidos de: (POSITIVO).

Estava deitado no sofá, mas a sensação foi de que o mundo tinha caído, de que estava tudo acabado, de que a minha vida seria completamente diferente do que eu havia planejado. Tudo por água abaixo. “Quem foi o filho da mãe que fez isso comigo? Só transei sem camisinha com duas pessoas, ambas de muita confiança, sendo uma delas meu ex!”

Depois, entrei em fase de negação. “Será que eu interpretei certo? Pode ser que não – preciso de uma opinião médica.” Mandei e-mail pra minha psiquiatra e uma mensagem pra ela ver o e-mail urgente. Também tenho transtorno bipolar, o que significa uma relação muito estreita com minha psiquiatra, meu psicólogo e as tarjas pretas.

17h – Ela me ligou. “O laboratório não te ligou? Ninguém entrou em contato?”. Mas me deu a notícia de que, sim, aparentemente o resultado era positivo e deixou bem claro que isso não era da área dela. Na mesma hora ela fez um novo pedido médico e fui pro laboratório correndo fazer outra coleta, da qual só saberia o resultado na segunda-feira.

Balada marcada no mesmo dia, fui e me distrai com meus amigos, olhando para as pessoas em volta e pensando que, daquelas 300, umas 50 deveriam ser soropositivas também.

Ser da geração Y não é fácil. Ser ansioso também não, mas aproveitando as vantagens, fui ler bastante sobre o assunto. Blogs de outras pessoas que também tem, baixei estudos acadêmicos e os li, assim como as notícias relacionadas à avanços de pesquisas. Por mais que estivesse cheio de informação na cabeça (e a maioria desse bastante esperança), o assunto não me deixava em paz – era um “cancer” que ia crescendo e tomava todos os outros pensamentos.

Tem uma coisa que todos os psicólogos e psiquiatras ficam impressionados quando falo que sou bipolar e sou ansioso: não tenho problemas para dormir. Mas no sábado à noite decidi tomar um calmante pra parar de pensar nisso e forçar o sono. Fui dormir às 20h.

Segunda decidi que seria diferente. O resultado sairia as 14h, mas ficaria em reunião o dia inteiro. A minha decisão foi ficar completamente focado no trabalho e só depois ver o resultado.

17h – Abri o resultado: (POSITIVO), de novo. Era a última confirmação que precisava.

Liga pra psiquiatra, liga pra infectologista, liga pra terapeuta. Você nunca valoriza no dia a dia, mas ter um corpo médico que está disposto a te ajudar (mesmo), faz toda a diferença. Meu terapeuta arranjou um horário no mesmo dia as 20:30. Minha psiquiatra, no dia seguinte às 9 da manhã. Quando eram 11 da noite eu já estava tranquilo e pronto para encarar o que vinha pela frente – o primeiro dia do resto da minha vida.

Leia a próxima história: Sou HIV positivo, pra quem devo contar?

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9 Comentários comentários para Quando tudo começou

  1. […] Do outro lado tem a salvação da minha vida, o remédio dos remédios, o muso do meu humor: o lítio (Carbonato de Lítio). Você deve estar se perguntando porque tomo o mesmo composto que tem na bateria de um celular (e também é usado pra fazer vidros a prova de fogo e na fabricação de alumínio). O lítio é um dos estabilizadores de humor mais antigos, desde 1948 ajudando pessoas como eu a viver. O lítio é complicado e os efeitos colateiras são chatos: ir ao banheiro o tempo todo, boca seca, hipotireodismo, dificuldade de fazer exercícios e problemas de cognição. Também tenho que fazer exame de sangue e controlar assiduamente os índices no sangue porque a dose terapeutica é bem similar a dose tóxica, que pode matar. Mas eu não reclamo, depois de tanto tentar com tantos remédios, ele foi o único que me segurou de um suicídio na hora do meu diagnóstico. […]

  2. Nao confio nesses exames de hiv vc acha q o governo vai querer ficar dano coquetel para quem fica transando sem camisinha acho q eles tao dando negativo para todo mundo.

  3. Oi boa tarde. Tive lendo seus relatos. Fiquei preocupada com vc e curiosa ao mesmo tempo. Vc esta bem hj em dia? Feliz ano novo!

  4. Gente nao e por falar nao
    Mas a maioria que tem nao sabe. Nem sonha
    Para mim tem muita gente infectada sem sonhar com isso. A gente pira msm. O meu deu negativo ate agora vamos ver. Pq nao e facil

  5. Miguel acredite o governo não dá nada pra ninguém mesmo tudo já está pago e se recebemos é pelo fato de já estarem pagos pelos impostos imposto à nós pelos governantes de nossas vidas. Infelizmente isso é real e não podemos burlar pois é muito dinheiro que gastamos pra sustentar as indústrias e isso nós pagamos pra eles com o aval dos governos, eu não gostaria de fazer parte destes números porém, tragicamente sou um número nesta matemática, os governantes garantem estes coquetéis porque ele tem de garantir os impostos coletados e os industriarios farmacêuticos ricos se tornarem milionários. Isso é a história daqueles que como eu convive com o hiv e milhares que sofrem e se quer sabe o mal que carregam dentro de si.

  6. As principais formas de transmissão do HIV são: sexual, por relações homo e heterossexuais; sangüínea, em receptores de sangue ou hemoderivados e em UDIV; e perinatal, abrangendo a transmissão da mãe para o filho durante a gestação, parto ou por aleitamento materno. Além destas formas mais freqüentes há também a transmissão ocupacional, por acidente de trabalho em profissionais da área da saúde que sofrem ferimentos pérfuro-cortantes contaminados com sangue de pacientes com infecção pelo HIV e, finalmente, há oito casos descritos na literatura de transmissão intradomiciliar nos quais não houve contato sexual nem exposição sangüínea pelas vias classicamente descritas.OITO CASOS, quem sabe você pegou de um terceiros que não os 3, alguém que você nem sabe,e os três estejam dizendo a verdade!

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