A primeira internação

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Se meu psicólogo estivesse lendo este título ele já falaria “Como assim a primeira? Para com esse pessimismo, menino”.

Foi a primeira desde os 12 anos de idade quando fiz uma cirurgia que fui internado. Espero que não seja frequente, mas foi um susto e tanto. Ainda mais porque não teve nenhuma relação com o HIV.

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Em uma linda manhã de sexta-feira, logo depois de sair da escola de natação senti que minhas amígdalas ou algo assim estavam inchadas. Deixei de lado pensando que poderia ser o inicio de uma gripe e voltei a trabalhar.

No sábado, febre durante o dia inteiro. Eu costumo pegar gripe assim como criança, uma a cada três meses, com sorte demora mais tempo. Já estava acostumado e tenho uma gaveta de remédios pronta pra qualquer apocalipse então nem liguei.

Domingo a febre continua, agora em 38,6 graus, quando estava pedindo um táxi pra ir ao hospital mando mensagem pro meu infectologista – que falou pra nunca ir ao pronto socorro sem avisá-lo. Ele me liga prontamente, receita alguns remédios e fala pra ficar em casa pelo menos por enquanto.

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Os sintomas que eu tinha eram estranhos, tudo indicava uma infecção viral, mas garganta e nariz estavam ótimos, nada de tosse. Eu achava que poderiam ser sintomas da “doença” que você pega assim que é contaminado com o HIV, a “gripe do HIV”.

“Está com alguma mancha no corpo?”
“-Não doutor, nenhuma.”
“Então continua descansando, vamos ver se melhora e vai me avisando.”

A febre foi baixando aos poucos, estava tudo certo, decidi aproveitar o momento par tomar banho. Tirando a camiseta vê-se o horror. Meu peito, costas, barriga, tudo vermelho, vários pontinhos vermelhos, como se eu fosse um dálmata, como se tivesse pegado catapora, como se tivesse pegado dengue. Era rash cutâneo.

Pensei “meh” e fui pro banho.

Uma meia hora após o banho, as manchas começaram a se alastrar lentamente, primeiro para os braços, depois para as mãos, a febre voltou a subir…

Eu tinha até marcado de sair com um ex meu (não o da história, um anterior) pra jantar. O plano era contar que estava com HIV e conversar um pouco. Trocamos o jantar pelo pronto socorro.

Na sala de espera do pronto socorro conto da minha situação pra ele. Foi uma sensação bem estranha, uma pessoa que gosta muito de você, que faria de tudo pra te ver bem, que você gosta muito, te vendo naquela situação. Ficava tentando imaginar o que se passava na cabeça dele de fato, será que ele estava me julgando? Será que ele só queria sair daquela situação e ir embora? Será que ele estava feliz em estar lá?

Dei sorte e a médica do pronto socorro conhecia meu infectologista, ficaram papeando no telefone em códigos sobre o que estava acontecendo, “mas os linfos pré-forntais não apresentam nenhuma inflamação”  […] “sim, não, não parece ser uma exantema”.

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Traduzindo: não sabemos o que está acontecendo com você, vamos fazer um exame de sangue e “você vai tomar soro enquanto espera porque está desidratado.”

Duas horas depois vem o resultado: nada de errado.

A temperatura do meu corpo volta ao normal, me receitam remédios mais fortes pra febre, como também anti-alérgicos (vai que!). Sou liberado com um atestado de quatro dias e posso voltar pra casa. Já eu libero meu ex desse rolê todo, tadinho, o que era um jantar virou toda essa romaria.

Passa segunda… Passa terça… Tinha uma consulta na quarta com meu médico. A febre nem existia mais, já as manchas? Eu estava praticamente um pimentão inteiro. Em um belo momento de uma quarta-feira ensolarada e elas começaram a coçar.

Este foi o momento em que perdi todo e qualquer decoro. Meu corpo inteiro coçava, da cabeça aos pés, nas costas, nos braços, pernas, tem pele pra todo lado e ela coça! Só que qualquer coceira vinha seguida de dor, muita dor. Era uma tortura sem fim, até o peso da camiseta incomodava.

Quando vi meu médico, ele pediu que prontamente fosse até o hospital e me internasse.

O hospital estava superlotado, tive que ficar em uma cortina dentro do pronto socorro, de quatro em quatro horas alguém passava pra me injetar algo, perguntar algo ou pedir algum dado. Pela primeira vez em dias o foco da minha atenção não era a coceira. Eu só queria dormir, mas nem quarto tenho, quem dera paz.

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Com o pouco que me restava de bateria pedi socorro a amigos que moravam próximo. Preciso de um carregador! Um dia depois usei as milhas do meu cartão e consegui um quarto maior, sem ideia de quando sairia pedi pra outros amigos buscarem uma muda de roupa e meu computador em casa, assim poderia trabalhar. Nessas horas você percebe quanto ter amigos queridos faz a diferença.

Meu médico vem me visitar de novo, agora com um diagnóstico. Farmacodermia.

Existem dois tipos de farmacodermia, as  alérgicas (que não foi meu caso, mas basicamente, você desenvolve uma alergia ao medicamento) e as não alérgicas: são as reações mais comuns de acontecer devido à superdosagem, fatores individuais, efeitos colaterais, etc.

No caso eu desenvolvi reação a um dos remédios que tomo pra transtorno afetivo bipolar, a Lamotrigina. Já estava tomando há três semanas, sem problemas algum, estava ótimo, feliz, sem pensar em me suicidar, aproveitando todos benefícios de não acordar feliz um dia e triste em outro.

A internação era apenas porque eu não estava reagindo aos anti-alérgicos (estava tomando quatro por dia àquela altura), passou a ser tudo intra-venal e pronto. Em horas as manchas começaram a desaparecer, a coceira se foi e estava voltando a me sentir digno de novo.

Foram três dias, meu infectologista foi me visitar durante vários momentos da “estadia” e confirmou que não tinha relação alguma com o HIV. Continuava uma pessoa saudável, com carga viral baixa, contagem de CD4 alta e pronto para encarar o que viesse pela frente.

O que não dá pra deixar pra trás é o susto e o pensamento de que aquilo poderá ser minha vida daqui pra frente. Que seu eu usar drogas ou beber demais posso voltar pro pronto socorro. Se não seguir tudo à risca vou estar me suicidando. Este é o começo do fim da minha liberdade.

Próximo post: Quem será que foi?

2 Comentários comentários para A primeira internação

  1. Amigo, tenho que te agradecer muito pelo seu relato, você acabou de acalmar muito o meu coração. Eu estou em PEP (20 dias) e com rash cutâneo isolado, já estava até aceitando a certeza de HIV até ler seu texto. Bom, amanhã irei ter consulta com minha infectologista, espero mesmo que seja a farmacodermia a um dos medicamentos pois recebi antialérgicos intravenais e logo as manchas passaram mas retornaram.

  2. Amigo tenho coceira só na parte inferior do corpó. ..Nunca tive isso antes e como umas bolinhas de alergia que coçam muito mas tem dias que a coceira para…. tomo anti alérgico em comprimido mas não passa uso também uma pomada… Tenho um exame de sangue marcado pois não acho normal, embora isso não vem acompanhado de nenhum outro sintoma… espero não ter contraído hiv.

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