Posso sentir seu toque

Era uma pessoa que frequentava baladas – em especial na Rua Augusta, meca da noite paulistana – com uma certa frequência doentia. De quinta a domingo estava sempre na rua durante a noite.

Navegava entre vários grupos de amigos de diferentes estilos de vida através de dias regados a álcool, drogas e muitas pulseiras VIPs. Pegar fila pra entrar em balada? Fora de cogitação. Os barmans me conheciam pelo nome e sempre sentia que era prioridade na hora de ir ao bar, curiosamente nunca senti isso sóbrio.

Os tempos mudam e a ficha de que isso não é saudável cai. Não saio faz um bom tempo como antigamente. Ainda vou pra muitos shows e outros tipos de festivais, mas festas em si viraram algo raro.

O HIV me trancafiou em um calabouço de incertezas e com elas minha libido. Minha política desde então foi não procurar ninguém pra encontros casuais. Não porque não queria, mas porque queria manter minha saúde mental em paz.

Outra coisa que a noite de São Paulo me proporcionou foi grandes amigos que fazem festas, o que significa ter que prestigia-los se quiser vê-los no meio dessa correria caótica que é a cidade grande.

Um belo dia decido ir à festa de um amigo. Estava me divertindo e dançando com outros enquanto via ele de relance de um lado para outro tentando organizar tudo entre DJs e apresentações no palco quando vejo Bruno.

o Bruno mora numa cidade próxima de São Paulo, é loiro alto e bem bonito, primeiro o avistei quando fui pegar um ar enquanto fumava um cigarro. Após o primeiro contato visual trocamos olhares a balada inteira.

Certo ponto da noite os quadris pediram arrego e decidi me afastar de meus amigos pra sentar um pouco. Quase que instantaneamente Bruno surge e senta ao meu lado. Começamos a conversar sobre amenidades, qual sua idade pra cá, o que faz da vida pra lá, foi nessa que quase por acaso nossas mãos se entrelaçam e começamos a nos beijar. E que beijo. Não era forte demais nem muito leve, apenas o suficiente pra sentir seus lábios nos meus como se ele quisesse dizer alguma coisa através de tal, sua respiração sincronizada com a minha.

Já estava afastado de carinho humano há praticamente um ano, senti alguma coisa no estômago com estivesse apaixonado por um milissegundo. Não quero admitir nem pra mim mesmo que foi mais que isso. Absurdo.

Na evolução natural do beijo a próxima etapa que segue é a língua, com ela dentro da minha boca reações fisiológicas “naturais” também, comecei a ficar animado embaixo das calças.

-FIca em pé. Diz o moço.

Prontamente fiquei em pé e ficamos nos beijando pelo que parecia ser uma eternidade, abraçados um a outro sem medo do que estava ao redor, sem ouvir a música tocando, apenas nós.

-Onde você mora?

Quando alguém pergunta onde você mora às 4 da manhã em uma boate só pode ser uma coisa: quer sexo. Respondi e perguntei de volta por educação.

-Qual sua preferência?

Eu indago “Como assim?” fingindo não saber do que se trata apenas pra manter o decoro.

-Ativo ou passivo?

Respondi que era versátil, pra mim tanto faz. Mal sabia ele que eu sequer consigo chegar a penetração no sexo até o terceiro encontro, ainda mais depois do HIV. Preciso de uma certa conexão com a pessoa.

Todo esse papo já tinha sido broxante o suficiente pra mim, pra piorar eu estava sóbrio e sem álcool enquanto ele moderadamente bêbado. A situação fica um pouco desconfortável quando ele passa a mão por cima da minha calça pra checar o volume. Naquela altura já era volume morto.

Bruno foi ao banheiro e nunca mais voltou.

Justificável. Eu já fiz o mesmo com muita gente. Ele foi educado apesar dos pesares. Era isso que ficava repetindo na minha cabeça, mas uma coisa não percebi na hora.

Queria eu ter essa habilidade de ficar de pau duro quando quisesse.

Na mesma noite em casa recapitulei toda a história na minha cabeça e chorei enquanto lembrava quem era. Deixei de ser aquela pessoa cheia de confiança pra situações como essa, fiquei fragilizado.

Mas viver com HIV é um eterno reaprender a viver. Esse foi mais um dia.

2 Comentários comentários para Posso sentir seu toque

  1. Me vejo em você. Me sinto como você. Quem sou eu hoje? Como pude me perder no meio de tantos pensamentos, pensamentos sem fundamento… pensamentos confusos, pensamentos na maior parte do tempo, tristes… As vezes eu só queria ser como todo mundo, mas sou completamente diferente, me isolando de tudo e de todos… Porque não mudo? Porque não procuro ajuda? Porque faço isso comigo… me machuco, me condeno, me cobro… É algo que está me consumindo de dentro pra fora, e pouco a pouco me vejo menos eu, menos o que realmente sou, ficando apenas o que as pessoas querem ver, mas que por debaixo de uma máscara, existe uma pessoa desconhecida por ela mesma e por todos, até o momento que o sofrimento for tanto e tudo ter um fim.
    Não quero admitir que estou doente, não quero admitir que preciso de ajuda… Aceitar o fardo de ter HIV já esta me consumindo… ser olhado diferente, passar por momento “preciso contar ou não”… chega!
    Cansado disso… cansado de ser assim. As vezes queria só ser eu, aquele eu esquecido, talvez também o maior preconceito esteja dentro da minha cabeça… ou talvez não… eu não escuto conselhos e muito menos ajuda.
    Como no dia que recebi a noticia: Você tem isso mas a vida é normal… Normal onde?

    Normal eu passar por isso? Mas fazer o que. Não preciso pensar nisso. Não vai mudar.
    O erro ja foi feito… alguns podem ser reparados, outros só fingindo que não existem e tantos outros melhorados… mas talvez eu tenha apenas desistido.

  2. História emocionante, me vejo em tal…
    Há pouco tempo conheci um rapaz no qual consegui confiar e contar meu segredo. Sorriso lindo, simpático, cabelos enrolados que me deixam louco até hoje. Apesar desse problema e dele ter aceitado isso, não mantivemos nenhum tipo de relação sexual, mas pense em uma pessoa que me faz feliz apenas por segurar minha mão e dizer que isso é apenas uma pedra no caminho na qual eu posso contornar com a ajuda dele…

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