Os bonitinhos da balada

Esse post foi escrito por um amigo que passou por umas poucas e boas. Por sinal ele também foi uma das pessoas com quem me relacionei antes de receber o diagnóstico.

-Soropositivo

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Conheci o Soropositivo (autor do blog) num momento ímpar da minha vida, meu namoro estava um lixo, estava fragilizado e querendo alguém para suprir aquela carência. Eu já tinha tomado todas, cheirado mais ainda quando o conheci no meio da noite numa festa. Do pouco que consigo lembrar, é que ele era fofo, lindo e o papo fluiu muito bem até trocarmos telefones. No dia seguinte viajei com alguns amigos e lembro de termos falado o fim de semana todo, mas como não era um conto de fadas, o “meu” príncipe fugiu. Acho que eu estava tão inseguro que ele não se viu capaz de segurar aquele drama, por outro lado, viramos amigos, acabamos ficando várias vezes em outras oportunidades, mas não, nunca namoramos.

party 08 resultToda essa história aconteceu em 2013, desde então somos próximos, já brigamos por causa de outros homens, já ficamos loucos juntos por aí, até já transamos num calor que mal conseguíamos respirar.Sexo com amigo é gostoso, porque tem carinho, mesmo não sendo um relacionamento. Muita cumplicidade, o considero uma das grandes pessoas que a vida sempre coloca na sua frente pra te aturar.

Voltamos para 2015, última vez que ficamos foi em janeiro naquele ano, depois tivemos uma briga e ficamos afastados até o final do ano, tentei marcar balada, jantar, visita e nada.

Certo dia, depois de tanto insistir, ele fala por mensagem: “Nossas agendas não batem, então vai ser por aqui mesmo, está aonde?” Respondi que estava no trabalho. Ele contou porque não estava aceitando meus convites, que estava com HIV.

A noite é feita de carão

Eu travei, tentei ser natural, acalmá-lo, mas travei, pensava: “Como assim, você?, tão lindo, tão incrível, inteligente, como?”, era o que me perguntava. Decidi que nada mudaria na nossa relação, decidi que a gente dormiria junto quando ele estivesse bem para isso e que teríamos o mesmo relacionamento. Sempre o achei incrível e isso não mudaria na amizade – nem sexualmente – era só a gente se proteger. Pensava: “E se ele se sentir sozinho e incapaz de namorar alguém? Eu estarei ali, porque sempre gostei dele e isso não vai mudar”.

Com o peso da sua nova condição, da sua nova vida, vieram as dúvidas. Quando foi meu último exame de HIV?party 10 result

Nunca fizemos sexo sem proteção, mas já falhei com outros. Na minha cabeça oca, sempre imaginava: “Se é bonito, cara de saudável, deve ser isso mesmo, não é? Moços bonitos devem se proteger e não pegam isso, então? Se ele tem e a gente vive praticamente a mesma vida, eu posso ter também, não?” Preconceito estúpido, mas no calor do momento era o que pensava.

Comentei o meu temor com o Soropositivo no mesmo momento, que ficou no meu pé para fazer o teste rápido. Não fiz, enrolei o primeiro, o segundo e o terceiro dia. Naquela semana, mais dois diagnósticos positivos de gente “do meu perfil” chegaram até mim, dois bonitinhos das baladas bombadas de São Paulo, “é uma epidemia?”, me questionava internamente. A minha preocupação pessoal é imaginar o número de “bonitinhos das baladas” que estão infectados, não sabem da condição da sua sorologia e continua colocando mais gente em risco. Existe o preconceito, sim, mas não podemos ser burros e nem fechar os olhos.

Depois de um dia exaustivo no trabalho decidi beber, na verdade, decidi encher a cara. É impressionante que quando você está bebado, sempre tem gente que te “doa” alguma droga. Já estava na segunda balada da noite e ganhei um pino de cocaína, não usava há algumas semanas. Usei com parcimônia para durar a noite toda e, no meio daquela festa, uma amiga veio me contar que um amigo próximo tinha descoberto que tinha HIV no mesmo dia. Pronto! Não pensava mais em outra coisa. Perto das cinco e meia da manhã, cheirando bebida, louco de cocaína, caí no posto de teste rápido, tinha criado coragem, eu precisava saber a minha condição.

Cadê meu nome na lista?

Nasci numa família que saúde sempre foi a prioridade, sempre tivemos médicos disponíveis e muita orientação. Sempre imaginei que se o diagnóstico de HIV positivo chegasse até mim, eu me mataria em seguida, pularia na frente do primeiro ônibus. Como viver com um vírus mortal dentro de você depois de tanta informação durante a vida toda?

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O relógio marcava 07:32 de uma manhã ensolarada, eu ainda cheirava vodka com energético da noite passada, na TV assistia aos jornais matinais enquanto esperava meu resultado com outras pessoas. A cada 15 minutos ia ao banheiro dar um tiro de cocaína pra continuar acordado.

A cocaína tem essa vantagem de te deixar aceso, alegre, animado, fazendo você se sentir o dono do pedaço. Misturado com bebida então… O corpo até produz uma terceira toxina pra te deixar lesado. Só que em exagero e quando o cansaço chega, a coisa fica ruim: seus dentes começam a ranger, o maxilar fechar, suor nas mãos e até paranóia. Eu pensava enquanto esperava “Talvez sejam as últimas horas como me conheço desde sempre, talvez minha vida mude em menos de meia hora”. Quis fugir, mas faltou coragem.

A essa altura da manhã a ironia estava a meu favor e assistia aos programas matinais de bem estar na TV. Vi amigos comemorando que estavam “limpos”, vi um bonitinho saindo com um sorriso no rosto, provavelmente negativo, e meu nome foi chamado.

28 anos? Não precisa ficar nervoso, não tem incidência com gente da sua idade…” lança a orientadora pra descontrair vendo a minha cara tensa.

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Eu me preparava para respirar um pouco mais aliviado, focado nas mãos daquela mulher abrindo o envelope quando ela encerrou a frase acima e soltou um sonoro.

Visheeee. Então, temos um positivo”.

Meu rosto não mudou, minha expressão petrificou em pânico com uma pitada de susto, minha única pergunta:

Qual a chance disso estar errado? Eu cheirei cocaína e bebi a noite toda.

A orientadora não sabia. A realidade que eu estava fugindo com tantas drogas e álcool durante a noite anterior voltou rapidinho. Ela me deixou sozinho na sala com aquele papel positivo e meus pensamentos.

Quando voltou explicou que o exame era muito sensível, mas que poderia mandar uma outra amostra de sangue para o laboratório com previsão de 15 dias até o resultado oficial. Concordei. Ela me deu outras orientações, um papel para eu começar o tratamento e me lançou um “boa sorte” antes de eu deixar a sala.

Não sabia como minhas pernas conseguiam se mover sozinhas, mas conseguiram, sai daquele momento que pareceu durar uma eternidade e dei cara com as 30 pessoas desconhecidas e ansiosas. Com as últimas energias que meu cérebro tinha, a primeira coisa que pensei foi em fazer cara de “deu negativo, estou aliviado” e deixei aquele lugar, aquela situação, aquele cara de 28 anos que entrou ali já não era mais o mesmo, já não existia mais.

Com a visão um pouco turva por conta do sol, não quis me matar como sempre planejei. Só queria entrar em um taxi e ir para a minha casa, meu quarto, meu mundo! Cheguei e não reconheci o meu próprio espaço, estava deslocado dentro do lugar que eu mais gosto de ficar, a informação estava me consumindo. Liguei pra uma amiga que sabia que eu tinha feito o exame, ela me fez repetir o resultado três vezes e, após entender a gravidade da situação, chegou em casa 40 minutos depois. Chorei pela primeira vez quando a vi, chorei muito. Sabia que aquilo era consequência de uma vida de festas, drogas e sexo 98% das vezes protegido. Sim, fui pego pelos 2%, se fosse 1% poderia cantar a música do Wesley Safadão falando que sim, 1% vagabundo, melhor rir, né?

Segui para o hospital público indicado, o documento estava errado e negaram atendimento. Já se passavam às 16:00 depois de uma noite não dormida, meu corpo estava cansado, meu coração batia acelerado quando brilhantemente meu cérebro decide me lembrar que tenho plano de saúde e, por sorte, tinha um hospital muito bom ao lado daquele. A primeira médica que me atendeu me acalmou, pediu todos os exames, disse que ali existia uma área de infectologia excelente, me internou e me deu um calmante (a pedido meu).

Passavam-se das 23:00, eu já estava de avental num apartamento dentro do hospital com a única amiga que sabia da minha situação, fora o Soropositivo que mesmo sendo diagnosticado, ficou chocado quando falei do meu caso “Sério? Calma”, disse. Eu só queria mandá-lo tomar no cu enquanto na minha cabeça ele falava: “não, não se choque com o meu status, ele é igual ao seu”, estava com raiva, só pensava nisso. Decidi contar pra outra amiga, que prontamente saiu do trabalho e pernoitou comigo no hospital. Com essa segunda amiga eu tinha uma viagem marcada para a praia no dia seguinte, iríamos passar três dias jogados na areia e fumando maconha, não estava no plano um hospital e todo o drama.

Vou pagar a comanda porque quero sair

Passei o primeiro fim de semana após o diagnóstico com a minha família, minha mãe (sempre a mãe) percebeu minhas poucas palavras e uma leve tristeza no olhar. “Você está triste, não fez barulho hoje, não deixou a pasta de dente aberta, não ta cantando por aí, o que foi?”. Disse que estava cansado do trabalho, ela entendeu meu momento de privacidade. Todas as outras vezes que fui visitá-la, o esquema era dar oi, comer e sair, dessa vez não desgrudei dela. O passarinho aqui quebrou uma asa, e mesmo sem saber, ela estava lá para cuidar.

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Nunca me preocupei muito com a saúde porque tenho uma de ferro, mas o momento chegou. Não é culpa minha, não é culpa de ninguém, mas a hora de ser um pouco mais responsável chegou. Lembro que já passei um fim de semana todo acordado, tinha combinado três festas entre sexta e domingo com amigos e tinha que trabalhar no meio. Acordei na sexta e só dormi no domingo, antes disso, breves cochilos de 15 minutos. Bons tempos (ou nem tanto), mas meus 30 anos estão chegando, a responsabilidade com a minha saúde veio num rasante ao ler “positivo” naquele papel. O depois é agora.

Percebi da pior que doava minha vitalidade para coisas que não mereciam tanta prioridade. Foram quatro longos dias até que eu me reencontrasse, me reconhecesse, me reconectasse e conseguisse assimilar a imagem que eu via no espelho com quem sou. Esse novo eu.

Sobre as pessoas, bom, decidi que ninguém mais terá acesso ao status da minha sorologia, não por enquanto, não precisa, não atinge e não afeta ninguém. Não quero ser o bonitinho da balada que pegou HIV do assunto de outras pessoas.

Sobre o autor

Tenho 28 anos, estou no auge da minha carreira, na versão mais bonita do meu corpo, do meu cabelo, do meu rosto. Diagnosticado com HIV há menos de uma semana.

Próximo post: Mãe, to indetectável!

6 Comentários comentários para Os bonitinhos da balada

  1. Parabéns pelo texto, Amigo. Eu me vi muito em vc, em dezembro de 2015 minha sorologia e ainda estou me reconstruindo. Minha saúde hoje com certeza é melhor, eu parei de fumar, bebo bem menos e cheirar nunca mais.
    Aliás, tenho plena certeza que a combinação alcool e cocaína ‘ajudaram’ com que eu me descuidasse, na hora de transar com o bonitinho da balada a gente fica cheio de poder e acha q isso jamais nos atingirá, mas agora sabemos que não é bem assim.
    Sou o cara bonitinho da balada de quebrou a cara mas está se reerguendo muito mais forte.
    Espero que vc se sinta melhor e boa sorte.

  2. Belo texto conectado com a realidade de tantos que ainda assim tem diante de si a revelação de uma vida que não termina com o diagnóstico. Renascemos todos.

  3. Estou passando por um momento muito difícil, também transei com um bonitinho da balada desprotegido, estava bêbado e foi acontecendo. Nesses dois meses, que são a janela imunológica, eu não paro de pensar no ocorrido e de ler sobre o assunto, nesse período tive uma leve dor de garganta e aparentemente alguns sintomas de que li na net, não sei se é psicológico ou se foi do frio, ou se é isso mesmo. Amanhã completa dois meses do fato, vou voltar a fazer o teste, sinto ansiedade e muito medo.
    Fui saber do PEP só depois de uma semana, fiquei triste por não saber disso e de não ser tão divulgado para os jovens. A partir de agora, seja qual for o resultado, mudarei meus hábitos, sejá pelo susto ou pela obrigação.

  4. Gente, eu queria saber se um soropositivo pode beber ? Se não afeta com a mistura dos medicamentos, grato desde já!

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