Mãe, to indetectável!

Houve uma montanha russa de emoções desde que fui diagnosticado. O diagnóstico em si, o fato de eu acabar hospitalizado porque exagerei nos remédios pra superar a notícia, contar para quem tive relações sexuais e por aí vai. Mas enquanto eu sempre achei que vim com defeito de fábrica (transtorno bipolar, TDA, abuso de drogas e álcool, etc) o que fez meu organismo me sabotar também o ajudou.

Sempre fui resistente a drogas – lícitas ou ilícitas – o que me irritava muito. Tive até hepatite medicamentosa, quando seu corpo decide lutar contra os remédios que você coloca pra dentro. Achava apenas curioso, mas quando fui hospitalizado porque meu corpo decidiu reagir a um medicamento novo, vi que a coisa era séria. Até hoje fico com medo que meus remédios de uso diário passem a não fazer mais efeito.

Eu tive um diagnóstico de HIV precoce. Sempre tive o hábito de fazer um checkup por ano, até os médicos ficavam meio perplexos, por que uma pessoa com seus 20 e tantos anos fazia um checkup anual? Sempre recebia olhares de censura na sala de espera onde cabelos grisalhos dominavam a cena. Até eu entendia toda essa repreensão quando via meus resultados, tudo sempre ótimo, exceto o colesterol e… um belo dia o HIV.

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Exceto pelo meu cérebro que adora pregar peças, sempre fiquei impressionado com minha capacidade de recuperação e saúde de forma geral. O que se traduzia em negligência. Usava mais drogas porque sabia que iria aguentar, não dormia porque confiava no domínio do corpo, ficava horas seguidas sem comer só porque estava afim.

Mas as vezes a vida precisa te dar um tapa na cara. Desde o diagnóstico do HIV eu melhorei drasticamente em todos os aspectos de saúde. Como disse sabiamente meu terapeuta:

 “Se não fosse pelo HIV eu estaria me afogando no álcool e drogas (ouch!)”

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Antirretrovirais

Assim que alguém é infectado, a carga viral da pessoa vai as alturas nas primeiras semanas, num período chamado de fase aguda. Isso pode causar alguns sintomas similares ao de gripe. Entre meu diagnóstico e o último teste de HIV negativo tinham-se passado mais de um ano, ou seja, impossível de saber exatamente que período fui infectado. O primeiro exame de sangue mostrou uma carga viral e índices de CD4 ótimos. Indicadores que meu corpo estava lidando bem com o vírus ou que fui diagnosticado muito precocemente (entre outros fatores).

Por causa da hospitalização que mencionei acima e o fato de que não é possível “começar aos poucos” a tomar os remédios para HIV, meu médico recomendou que esperasse me adaptar aos novos medicamentos pra transtorno bipolar e depois sim, começar o tratamento com antirretrovirais.

Dois meses após este fato e ainda sem começar o tratamento antirretroviral fiz mais um exame de carga viral, exame o qual será feito a cada trimestre pelo resto da minha vida. O resultado numérico dele não importa muito, mas o quão rápido esse número sobe em determinado período relativamente ao anterior sim. Os dois exames estavam com o número da carga viral praticamente intactos, meu corpo fez o trabalho de oprimir o vírus, que praticamente nem se multiplicou. Algo muito raro. A essa altura eu já tinha recebido a honra de ter a opção de ficar sem tratamento caso quisesse (porém fortemente encorajado a não). Também foi levantada a hipótese que eu fosse um super controlador, pessoas que controlam o vírus sem medicamento a longo prazo.

Eu não ia esperar pra ver, comecei o tratamento aproximadamente um mês depois.

O sonho da casa própria carga viral indetectável

O objetivo de todo soropositivo é chegar a carga viral indetectável. Quando o número de cópias do vírus atingem menos de 20 por ml (o menor número que exames modernos conseguem detectar), o que configura tecnicamente como se ele não estivesse lá. A medicina já deu um jeito de praticamente eliminar o vírus do seu organismo, com uma única condição: fique tomando seus remédios. O vírus é tão safado que se você parar, ele volta com tudo e ainda mais resistente.

Comecei o tratamento com antirretrovirais morrendo de medo, também costumo ter uma “sorte” grande com efeitos colaterais pra medicamentos dos mais variados. Desde impotência, pesadelos vívidos e até ficar mijando a cada 1 hora pontualmente durante o dia inteiro. Tudo isso também me deixou “vacinado”, se já passei por tantas dessas, como não gostar da ideia de ter alucinações e euforia, um dos efeitos colaterais do meu antirretroviral?

Infelizmente a euforia só veio durante uma noite. Felizmente isso queria dizer que me adaptei bem ao remédio.

Um mês após o inicio do tratamento, fui tirar sangue para o momento da verdade. Eu poderia ter reagido mal ao antirretroviral, o vírus progredido, meu corpo reagido com hepatite, meu médico até confessou que esperava que eu fosse ter alguma reação alérgica, mas tudo correu tão bem que em menos de 40 dias já estava com a carga viral indetectável. Minha contagem de CD4 aumentou pra níveis absurdamente bons, estava mais saudável que nunca.

Cadê o vírus que estava aqui?

Existem alguns estudos que indicam que soropositivos com carga viral indetectável podem fazer sexo (inclusive sem camisinha) e praticamente não transmitir HIV.  A chance de você contrair HIV de alguém com carga viral indetectável é menor do que de quem não sabe sua sorologia. Essa sensação de que você não é mais uma arma biológica é indescritível, a vida passa a ser menos angustiante.

Enquanto isso continuava a lutar com meus problemas psicológicos, minha ansiedade ficava mais e mais difícil de lidar, pra piorar, a resistência agora decidiu atacar meus ansiolíticos, quase nada anda funcionando quando preciso ficar calmo.

O fato de ter “vencido” tão rápido o vírus e toda essa cadeia de fatores que mostravam que meu corpo era resistente foi um choque de realidade.

Quando você é diagnosticado, mil angústias passam pela cabeça: seu impulso é pensar que está tudo acabado; que morrerá cedo; que sofrerá na cama do hospital; que morrerá sozinho porque ninguém te quer; dentre outros dramas.

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Essa recuperação extra rápida me fez ver a doença com uma certa arrogância. Ela mal apareceu na minha vida já tinha “ido embora”. Foi um sopro de esperança e ao mesmo tempo de auto-destruição. Eu voltei a ir pra eventos sociais – coisa que não fazia há tempo – e conseguia ficar sem drogas. Ao mesmo tempo decidi que poderia me dar ao luxo de usar algumas coisas que tinha parado desde o diagnóstico.

Consegui – como não conseguia há muito tempo – fazer novos amigos. Voltei a sair pra dançar, mas também voltei a beber fora de controle. Voltei a escrever e focar em projetos pessoais, mas também relaxei na frequência de exercícios físicos. Comecei o triplo de projetos no trabalho, mas abandonei a meditação.

Por um tempo fiquei me torturando. Por que estava fazendo isso comigo? Por que estava falhando tanto na hora de me cuidar? Mas como um sopro de esperança que só alguém pago pra falar isso pode te dar, meu terapeuta fez uma retrospectiva de final de ano comigo e consegui concluir que estava 400% melhor.

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Apesar dos demônios mencionados acima, este sempre fui eu. Altos e baixos, extremos e radicalismos, tenho certeza que você tem os seus também. Aprendi a transformar o HIV de demônio em oportunidade. Comigo aconteceu rápido e eu sei que nem todo mundo tem a sorte de ficar indetectável rápido, mas uma coisa é certa, tenho uma vida “normal” vivendo com HIV. 

Se você tem HIV, também terá uma mais cedo ou mais tarde.

15 Comentários comentários para Mãe, to indetectável!

  1. Seria bom vc colocar o resultados dos seus exames dai serviria como parâmetros para compráramos, e também uma inspiração de cada vez mais cada um de nós se cuidar, pois além de vc tratar assuntos delicados de forma clara, vc coloca dicas e coisas legais a serem feitas!

    • Oi Stanley, eu não coloquei de propósito, cada um tem um nível diferente do que seria o “ideal” dependendo de fatores seus. Por exemplo, eu tenho TDA e transtorno bipolar, comecei a terapia tarde entre outras coisas, a minha contagem de CD4 e carga viral podem estar no nível e ideal, porém pra você não. Eu preferi deixar fora pra não causar confusão.

  2. Ola eu descobri a pouco tempo a doença, ainda nao consegui assimilar direito esse turbilhão de sensações…antiretroviral e álcool combinan?

  3. Antirrerroviral não combina com álcool e drogas, definitivamente.
    Podem potencializar os efeitos colaterais,ou até prejudicar a absorção da medicação. Além disso, se a pessoa bebe em excesso pode vomitar e perder a medicação, oq seria extremamente prejudicial. Outra questão, é que os ARV’s (antirretrovirais) devem ser tomados religiosamente nos seus devidos horários, sem atrasos, e aleguem q se droga ou bebe em excesso, corre o sério risco de negligenciar seu tratamento, esquecendo de tomar seus remédios. Outra questão consiste em Q todo medicamento é metabolizado no fígado oq pode sobrecarregá-lo, e o alcool, outras drogas (lícitas e ilícitas) só aumentam essa probabilidade.
    Enfim, é possível viver com HIV?
    Sim, eu digo que sim.
    Mas é mto melhor viver sem ele.
    Usem camisinha SEMPRE!

    • Obrigado Victor pela resposta! Estou tentando nao antecipar a passagem… Como todos diagnóstico esse ta complicado de aceitar.

    • Nada haver. se vc toma o retroviral e quer beber álcool ou até mesmo tomar sua droga, faça com prudencia. Uma coisa não tem nada haver com a outra.

  4. Entendi, soropositivo,
    Adoro seu blog, entro todos os dias para acompanhar e reler tudo, fui diagnosticado a 2 meses e iniciei a medicação há 1 mês, tenha uma carga viral muito baixa, e cd4 alto, dai estou muito bem. Esses dias acabei tendo Zika, moro no Rio de Janeiro, sabe como e neh, 🙁 mais achei meu organismo mais resistente e forte. Estou me cuidando, fazendo atividades físicas, me alimentando melhor, posso falar que as coisas só melhoraram, passei a amar mais, tanto as pessoas quanto a mim mesmo.

    • Rafa, cd4 e cargas viral são coisas diferentes, pra vc ter carga viral indetectável, tem que ter menos de 50 cópias do vírus HIV circulando no seu sangue… Isso é um exame específico que verifica. Já cd4 e qualidade de celular que defendem seu organismo, aí é outro exame que identifica, um adulto saudável possui mais de 500 celular cd4 por ml de sangue, se vc se torna indetectável, automaticamente não terá vírus matando seus cd4 e naturalmente terá um aumento dessas células…

  5. Gente é sempre bom ter ao nosso lado pessoa passando pela mesma situação que agente, caso queiram manter contato podemos conversar mais, para trocar ideias sobre nosso tratamentos e sucesso e desafios! Fiquem tranquilo existe vida após o positivo!
    E-mail johnwilliam2007@hotmail.com

  6. Hoje faz 2 semanas que descobri que estou indetectável! Meu namorado é sorodiscordante e está comigo desde que eu descobri que era portador do vírus, tem sido o meu melhor amigo-companheiro… mas apesar dos apesares, tenho medo de fazer sexo com ele e não transamos a 6 meses já (desde que eu descobri que era portador). O que eu faço ? obrigado

    • O que você faz? Volte a fazer!! AGORA!!
      Não deixe sua vida e a intimidade de vocês esfriar por conta disso. Sexo é bom, ótimo, excelente, ajuda a te manter aceso e também dá uma turbinada na cuts ahahah.
      Sério, se vocês são sorodiscordantes e ele está OK com os exames dele (pois o seu acredito que tenha que fazer a cada 6 meses) conversem com o infectologista sobre o uso do PrEP e bola pra frente!
      Lembre-se: você tem menos chances de passar o vírus para ele do que se ele pular a cerca. Então, manda bala!

  7. Hj faz três dias q soube q tenho HIV e to tomando a medicaçao, mas o sentimento de tristeza, a vontade de chorar, a raiva, revolta tao me torturando, isso n vai passar? E os remedios ja estao fazdo efeito? Q n senti nenhum efeito colateral ate agora esses tres dias

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