Heartbreaker

Eu tinha uma vida sexual ativa antes da notícia de ser soropositivo. Nada absurdo, foram 10 parceiros mais ou menos em 2 anos.

Um pouco antes de ser diagnosticado estava casado de todos os aplicativos – como Tinder, Grindr e Hornet – da vida, essa história de um menu online onde você escolhe uma pessoa e depois fica durante horas fazendo as mesmas perguntas como “o que você faz” ou “onde mora?” só na expectativa de que alguém tome o primeiro passo e convide pra um encontro na vida real.

Existem dois tipos de primeiro encontro, um é num lugar público como restaurante, café ou parque, a ideia é conhecer a pessoa, ver se existem interesses em comum, quase como se fosse uma pré-etapa obrigatória pra fazer sexo logo em seguida (o que muitas vezes era). Não poucas vezes escolhia um restaurante perto da minha casa, assim poderia estrategicamente convidar para um café logo em seguida e claro, ficaria mais fácil pra voltar pra casa né?

O outro tipo de encontro – que eu evitava mas mesmo assim fazia ocasionalmente – era convidar uma pessoa pra minha casa ou ir direto pra casa dela sem passar pela triagem mencionada acima. Mamãe sempre alertou contra conhecer pessoas na internet e esta é a maneira mais certeira de ser assaltado ou perder um órgão. Mesmo no melhor dos cenários e considerando que tudo daria certo, frequentemente caia em ciladas difíceis de sair: era diferente demais da foto; tinha algum tique nervoso; falou que morava sozinho mas tinha uma uma pessoa assistindo TV no quarto ao lado entre outras. O problema dessa ideia é que você já está condicionado ao sexo e falar que não quer precisa ser uma desculpa muito nobre. A minha era algo do gênero “imagina, não sou desses que vai pra cama no primeiro encontro” ou colocava um alarme pra tocar e fingia que era meu irmão ligando puto que esqueceu a chave pra entrar em casa.

Nem preciso dizer que essa vida é cansativa. Ora você está sendo escolhido como um Pokémon entre vários outros, ora está escolhendo um no mar de torsos. Pouco antes de ser diagnosticado eu abandonei essa vida e estava tentando através do caminho mais difícil.

Sem aplicativos de pegação o sexo é muito, mas muito mais difícil. Todas as pessoas que querem ir para os finalmentes já estão lá, o restante do mundo fica apenas com os caretas ou desafiadores de status quo como eu. Facebook vira o principal ponto de busca. Claro que quem procura sexo também passa boa parte do dia assistindo vídeos engraçados na rede social, mas a aproximação tem que ser bem diferente, lenta e cheia de piadas bem elaboradas. Outros sites? Nada que me fale tanto sobre pretendentes e seus amigos em comum como o Facebook. Instagram? Funciona bem, mas demora meses. Bar e balada? Não sou dessa geração que flerta na vida real.

Mas se tem uma coisa que funciona muito bem é a “rede de contatos” com quem já fui pra cama. Nada como um cliente satisfeito, né? Sem lenga-lenga, truques ou surpresas.

disasters 05

E boom, veio o HIV. Instantemente minha vida sexual se dissipou, eu não queria mais saber de ninguém, só ficar em casa e assistir séries como se não houvesse amanhã.

Dizer não para os boys que já tinha desenvolvido certo relacionamento casual virou rotineiro, não me interessava mais por sexo, por afeição.

Foi nesse momento que também percebi o quanto eu tinha desprendido energia pra procurar parceiros sexuais, deixando de lado familia e principalmente amigos. Quando namorava, a maior parte do meu tempo ia pro namoro, quando estava solteiro em procurar um possível namorado.  Se eu dava atenção pra meus amigos ocasionalmente, por que eles dariam pra mim em dobro? Eu cavei minha própria cova porque estava sempre “ocupado” demais pra sair pra jantar, ir ao cinema, ao parque, etc.

Comecei a perceber o quanto certos tipos de relações são importantes e estou reconstruindo essas aos poucos, voltando a encontrar amigos, voltando a falar com a família…

Mesmo depois de ficar indetectável, não me sentia mais bem pra voltar a essa vida de atividades extra-curriculares nos aplicativos. Quanto a sexo e relacionamentos? Hoje estou focando mais na qualidade do que quantidade. O HIV me mostrou que pra confiar em alguém a ponto de falar minha sorologia não vai ser fácil. Ao mesmo tempo estou extremamente aberto a conhecer alguém em qualquer lugar, seja no ônibus ou bar, desde que não acabe em sexo no primeiro encontro. Mas essa história fica pra próxima…

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