Com HIV, solidão ganhou outro significado

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Eu moro em São Paulo há um bom tempo, saí de outro lugar do país pra vir tentar a vida, nem era maior de idade e não sabia direito o que estava fazendo, apenas que estava fugindo de um lugar onde sentia que não pertencia, a cidade onde morava era pequena, todos sabiam da vida de todos e quem era filho de quem, eu sempre achei que no fundo todos eram primos de todos de alguma forma. Eu sabia que era gay mas guardava pra mim a sete chaves porque assumir naquele contexto seria errado, muito errado.

Em São Paulo, já morei com 20 pessoas no mesmo apartamento (sim, 20). Já dividi quarto com seis pessoas, sendo três beliches e eu dormia num colchão no chão e minhas roupas sumiam frequentemente. Já morei em esquina de avenida movimentada onde acordava involuntariamente as seis da manhã porque os ônibus começavam a passar. Depois de tanto sufoco, nos anos seguintes dividi apartamento com amigos, tiveram os muito chatos como também tiveram os muito legais.

Por isso que quando consegui morar sozinho, mesmo que sofrendo financeiramente e quase sem conseguir pagar o aluguel direito, foi um alívio e felicidade sem fim. Depois de mudar pro meu cafofo ainda fiquei anos sem sofá, mesa, TV, entre outras coisas que não são tão importantes assim.

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Como sempre sofri por falta de espaço, ficar sozinho nunca me incomodou. Também morei perto de avenidas grandes e lugares barulhentos, a questão de mudar pra um bairro calmo me deixou nervoso, era muito silencioso. Meu namorado na época teve a compaixão de me dar uma caixa de som assim eu poderia ouvir música quando ficasse nervoso com o silêncio.

Por sorte (ou azar), acabei em um lugar com uma vista linda em um bairro que crianças empinam pipas e loucos lançam balões de gás durante festas juninas, não é incomum sábado à noite ouvir pessoas festejando alguma coisa, música ou risadas nas casas que ficam ao redor.

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Mesmo depois do namoro acabar, ficar sozinho aos finais de semana em casa me deixava tranquilo, jogar video-game, ir a feira e cozinhar só pra mim bebendo um mojito no verão, fazer um bolo num sábado chuvoso de outono, sair pra correr no parque em domingos ensolarados…

Depois da fase de luto por causa do fim do namoro, consegui fazer algo que sonhava quando era solteiro e não morava sozinho: convidar boys pra minha casa, desde jantares até simples rapidinhas, a hora que quiser, quando quiser. Ah, a liberdade. Consegui aproveitar minha fase solteiro vida loca pegador por mais ou menos, uns 10 meses, depois me vi de repente em outro namoro.

E aí veio o alcoolismo e o transtorno bipolar

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No começo fui diagnosticado com depressão (é comum já que os sintoma são bem similares). Só que antidepressivos pra um bipolar é a fórmula do fracasso. Não somente eles pioram os sintomas como desencadeiam hipomania ou crises depressivas mais fortes ainda.

Finais de semana deixaram de ser algo esperado e passaram a ser um terror. Era eu lidando comigo mesmo, tentando não beber, sofrendo pra me adaptar aos medicamentos, que me deixavam pior, mas com a promessa era de que tudo iria melhorar. Eu ficava broxa, quando isso não acontecia, não conseguia chegar nos finalmentes. A auto estima já estava abalada, com essa tudo piorava.

Foram quatro medicamentos diferentes, um namoro acabado e uma crise de hipomania – onde eu sai sozinho pela cidade que nem um louco me drogando com tudo que tinha pela frente e voltei dois dias depois pra casa – até descobrirmos que era transtorno bipolar de fato o diagnóstico.

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Ufa, pronto. Medicamento certo, vida nova. Em dois meses passei de quero morrer pra estou bem. Voltei a ser funcional e a trabalhar como uma pessoa normal. Correr aos finais de semana voltou a ser rotina, fazer feira também, até louça estava lavando de novo (algo que antes era negligenciado por semanas), fui apresentado a um remédio novo pra parar com a vontade de beber que funcionou mais do que esperado, estava feliz de aos poucos ter minha vida de volta. Já estava até conseguindo ir a happy hours da firma e interagir com colegas de trabalho (que os amo, alias), sem beber.

Até que… Fui diagnosticado com HIV.

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Por sorte tinha acabado de entrar num medicamento milagroso que me controla tão bem que até fiquei chocado de saber que existia estabilidade na minha vida, então não sofri tanto.

Desde o diagnóstico ainda não fiz sexo. Pensar em ter intimidade com outra pessoa nesse momento me assusta de uma maneira que me sinto um adolescente dando o primeiro beijo.

Neste tempo houve muita reflexão quanto a minha saúde, tudo que pensava é em o que seria de mim, como precisava focar em sobreviver, em cuidar de mim mesmo, foi a rehab mais efetiva da vida, não usei drogas desde então, parei de beber consideravelmente e nunca pratiquei tanto exercício físico na vida.

Não tive tempo de discutir com o terapeuta sobre, eu ainda não sei como avaliar isso, se considero uma fase de choque, se considero uma fase de negação, ou se estou levando “a sério demais”.

Todo um drama

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E os convites pra sair? De repente virei heartbreaker e passei a dar fora em todo mundo. “Ah, preciso trabalhar esse domingo“. “então, minha mãe está me visitando”, “tem um pessoal da gringa do meu escritório na cidade, preciso ser guia turístico”.

Parece que estou sempre fugindo, como se alguém estivesse atrás de mim, mas o que de fato me persegue está dentro de mim, me consumindo lentamente.

Também não quero sair com alguém familiar e falar que estou com HIV.

Eu só falei do meu status pra amigos muito próximos. Porém existe toda uma gama de pessoas que eu considerava amigas mas não posso confiar, tenho três doutores que me acompanham praticamente semanalmente deixando claro que isso não é uma boa ideia.

Quem eu estava ficando na época que fui diagnosticado digamos, que fugiu. Não sei se obrigatoriamente por causa do HIV, mas o fato de eu estar fragilizado não me fez ver a situação com bons olhos, quem sabe um dia eu mude de ideia.

Depois disso também fui internado por causa de um da medicação para transtorno bipolar. Tive que parar com elas, o que significou algumas semanas meio zumbi sofrendo pra ser funcional.

Depois de me adaptar aos novos remédios, voltei a focar a minha saúde, academia, corrida, me alimentar bem, trabalho.

Mas aí…

Na mesma época meu TDA  piorou,sequer estava conseguindo trabalhar e precisei entrar em medicação pra isso também.

Caso você não seja familiar, qualquer remédio que mexe com sua cabeça geralmente tem um tempo de adaptação longo e alguns efeitos colaterais bizarros, passei finais de semana em casa apenas torcendo para que aquilo acabasse, ou que eu pudesse dormir e acordar só depois de vários dias.

A solidão

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Foi depois de tanto período de adaptação, de remédio após remédio que eu comecei a perceber (na real meu terapeuta jogou isso na minha cara) que eu vinha me isolando, desde amigos próximos até os conhecidos ou as possibilidades de fazer novos amigos.

_stop signNo começo fui me afastando de alguns amigos porque queria eliminar más influências: drogas, baladas, ambientes não muito acolhedores que já fiz parte no passado. Depois veio a questão da bebida que precisava evitar dado o histórico de alcoolismo e os remédios que não fariam uma alquimia legal. Nessa eu eliminei basicamente todas as possibilidades de interação social. Como você sai com seus amigos caso não esteja bebendo ou pra comer (e beber)?

Era figurinha conhecida da noite paulistana, boa parte das hostess da cidade me conheciam pelo nome, poderia ir para a balada sozinho que sempre encontraria um amigo e sempre tem um amigo te convidado pra festas na casa deles. De repente entro num buraco de anonimato e as festas que antes era convidado agora são apenas fotos no facebook.

Foi o fato de que não estou mais bebendo? Foi o meu “sumiço”? Será que eu deveria ser mais incisivo e me convidar?

Hearth breaker

Uma coisa que nunca pude reclamar na vida é que nunca sofri (tanto) pra conseguir um encontro. Também dizem que sou bonito, o que ajuda, sem falar que a probabilidade de alguém tentar se aproximar de você enquanto está na inércia é grande no meu caso. O ponto é, já “resolvi” solidão em vários momentos da minha vida procurando alguém pra sair e transar só por uma noite.

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Isso tem lá suas consequências, a principal delas é não criar laços e você entra num ciclo vicioso onde conhece um monte de gente, mas ninguém é realmente seu amigo, nenhuma dessas pessoas passa a virar alguma coisa na sua vida.

A parte mais difícil é quando alguma dessas pessoas do passado insiste em sair comigo. O que me dói o coração é que eu também quero. Tento falar numa boa que não vai mais rolar, nem sempre dá certo e acabo saindo com fama de insensível.

Só a possibilidade de pensar que teria que falar que sou soropositivo antes de fazer sexo me arrepia. Dado eu histórico psicológico eu não sei se aguentaria as mais diversas reações.

Não faço sexo há seis meses, não tenho contato humano íntimo com ninguém no mesmo período. A sensação que tenho é de que, como um criminoso que acabou de sair da prisão, não estou preparado pra ser reintegrado a sociedade.

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7 Comentários comentários para Com HIV, solidão ganhou outro significado

  1. Muito forte ler tudo isso.
    Esse cara é um guerreiro, a história dele é semelhante a minha, só tenho uma vantagem, sou soronegativo.
    Estou torcendo por ele.
    UMA FRASE DE OTIMISMO:
    DEUS É CONTIGO!

  2. Guerreiro, mas infelizmente muito passam por isso, como já passei, mas torço muito por ele, e digo o Tempo resolve e cura tudo.

  3. Caí na silada é agora tenho hiv o pior tenho 24 anos sem vida completamente não sei o que fazer à não ser exames um atrás do outro não consigo empregos pq tem exames é muitos foram detectados por sangue meu zap tive alguém pra convesa pouco comingo agradecido

  4. Gostei da história de vida dele.
    Nada de “dramalhão”.
    Ele relatou quase toda a vida dele muito bem.
    Com certeza ele é um guerreiro.
    Morou na rua, morou com diversas pessoas. Vida financeira difícil e contou tudo sem vitimismo.
    Eu estudei em colégio interno, fui Comissário de Bordo de uma Cia Aérea com 21 anos, morei em Sydney e agora infelizmente moro no Brasil , mas pense no que me deixa destruido: as coisas estão ocorrendo o inverso de como ocorreu com ele.
    Gostaria muito de ter novamente a oportunidade ou sorte de conseguir algo do que conquistei no passado.
    Hoje com 50 anos, descoberto ser hiv positivo há um ano e um mês, depressivo, sem uma conquista nos últimos 3 anos.
    Gostaria até de ter coragem de viver na rua pois a única coisa que tenho pra me fortalecer é a equipe multidisciplinar e o tratamento. Nada além disso.

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