Saindo do armário

Quando alguém pergunta como me descobri gay, brinco que sempre fui assim e de repente comecei a perceber que meus amigos gostavam de mulher e por isso eu era “errado”. O que seguiu foi uma vida dentro do armário, timidez, e falta de contato social. Pra ter noção, nunca fui numa festa durante minha adolescência.

Aos 19 sai do armário – termo utilizado para assumir a sexualidade – e minha vida sempre foi muito aberta pra todos que me conheciam, do chefe ao tio da manutenção com cara de bravo. Meu primeiro emprego ser gay era um estigma porém o mercado era cheio de gente como a gente, uma coisa que até hoje olho e tento entender, mas só consigo me enojar.

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No segundo, terceiro e quarto empregos, na industria do varejo, na linha de frente das lojas eu decidi não falar. Mais pelo fato que não queria atenção.  O que depois descobri na real ser apenas um eufemismo pra “eu era enrustido até mesmo pra mim”. Mas era apenas no trabalho, fora dele desabrochava igual uma mona. Quem ficou (sexualmente falando) comigo àquela época e hoje diz que existe uma grande diferença.

No começo era tudo segredo, depois ficou segredo somente no trabalho, no quinto emprego… Também segredo. Fui trabalhar no mundo online em uma empresa que parece todos os seus pesadelos de help desk, aquele monte de marmanjo que  sabe muito sobre TI (assumo, era um) e está lá fazendo piadinha, campeonato de peidos e idolatrando o final de semana com um salário mediano. Eu era feliz e posso dizer que foi onde “aprendi a ser machista”. Ninguém soube que eu era gay – pelo menos oficialmente – nos quase 2 anos que trabalhei lá.

Depois continuando minha carreira entrei em um mercado que era igualzinho ao meu primeiro (moda), só que dessa vez online. Ou seja, decidi assumir desde o primeiro dia e ver no que ia dar. Ninguém se importou. Decidi contar para as pessoas que entravam no time só depois de um período de “amaciamento”. Sabe como é, aquela coisa estúpida onde você quer que a pessoa saiba que você é competente antes de contar?

Exceto pelas perguntas aqui ou lá sobre como é o sexo e quem penetra quem durante o happy hour (as quais não desmereço de forma alguma), já se vão 7 anos desde que adotei essa política sem nenhum problema. Assumido em todos os lugares, pra todo mundo. Único problema que tive até hoje foi quando assumi meu último namoro e postamos foto se beijando no Facebook. Eu não ouvi nem passei por nada, mas me disseram que algumas pessoas de outras áreas a qual já trabalhei ficavam ofendidas com a foto. Fazer o quê.

Não existe uma fórmula mágica nem momento certo. Basta sua coragem e a possibilidade de arriscar muitas coisas. Eu estava mudando de emprego e como retirante de outro estado já sabia que isso significava um risco mínimo. Um mundo completamente novo se aproximava e se não o atacasse como queria não teria outra chance tão cedo. Eu acho que não faria a mesma coisa se morasse em cidade pequena, se já estivesse há muitos anos na empresa. Mas também não sei se aguentaria viver tanto tempo no armário.

Falando em armário….

Já a família… Bom a família ficou ignorada num buraco negro que acordo de repente com meu terapeuta estalando os dedos na frente da minha cara e falando “acorda” (sim, ele é assim grosso às vezes).

Minha família sempre foi liberal, moderna e focada no futuro, embora as aparências enganam e eles queiram muitas aparências. Meus pais sempre foram de dar muito valor ao que outros acham deles. Somado ao fato de que ouvi histórias das mais absurdas sobre amigos e conhecidos que sairam do armário para pais que até então eram tranquilos mas tiveram uma recepção não muito calorosa foi tudo o que precisava pra ficar tímido e não contar nada.

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Sem falar no fato de que eles sempre foram extremamente controladores. Eu saí de casa muito cedo, antes mesmo de fazer 18. Eu não aguentava mais voltar da escola e ouvir um sermão toda vez que sentava a mesa sobre o que fiz e o que deveria ter feito, sempre em tom ameaçador. Não porque eles estavam ameaçando, mas descobri mais tarde, porque simplesmente são assim. Até hoje se falar de algum problema nem que seja num tom de piada eles já começam a dar sermão ou falar como as coisas devem ser feitas.

Como num filme barato da sessão da tarde, eu de casa cedo pra cidade grande. Com essa sofri bastante com dinheiro e tive a oportunidade de ter meus país sempre me “apoiando”. Mas baseando no histórico deles isso só dava mais motivo pra quererem controlar minha vida. De onde eu ia até o que fazia. Eu sempre me afastava mais porque além de sair de casa também não queria aquele controle em cima de mim.

Haja terapia.

Poucas semanas depois tive que sair do armário sobre o HIV. Foi numa dessas crises de eu sou o chefe. Estávamos no telefone e eu mencionei que precisava de dinheiro emprestado. Eu estava gastando demais com médicos e sem dar muitas explicações ela ficou divagando por uns 15 minutos, até mesmo me acusou de usar drogas (mal sabia ela) e terminou com um categorico não… Mentira, ela continuou por mais alguns minutos num sermão sobre onde começar e economizar e onde gastar, até que eu não aguentei mais tudo aquilo somado ao fato de que mais uma dessas me deixaria maluco por causa do transtorno bipolar, decidi soltar a bomba.

-Mãe, seguinte, to com HIV.
-Ai filho, isso era o pior que poderia ter acontecido com você.

Todo o discurso de “fique tranquilo que saúde você tem o resto corre-se atrás” tão repetido por ela ficou por aí. Expliquei mais uma vez porque estava usando o dinheiro e no caso o sermão virou pra “quando é que você me ia me contar?” (pois é, não tem trégua). Mas acabou bem e consegui o dinheiro emprestado.

Eu tinha acabado de asumir que era gay pra ela numa outra ligação (tudo por ligação porque moro longe) há dois meses. O que será que isso causaria na cabeça dela? Qual seria o impacto de tal notícia? Não mudou, mãe é mãe, algumas demoram mais que outras.

Depois veio o pai, que tinha mais medo ainda da situação, me tratou até melhor que ela e até hoje quando falamos faz questão de deixar claro que me aceita e se orgulha de mim como sou.

Não falo nada disso com mágoa, aqui estou, assumido pra tudo e todos e indo no show da Madonna quando ela aparece.

E hoje? Só tomo cuidado quando viajo pro oriente médio porque lá é pena de morte ou em alguns casos chibatada. E deixar cicatriz nas costas por ser gay ninguém merece!

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