O Amigo

Em uma bela tarde de sábado, convidei um grande amigo pra almoçar. Não o via há tempos, já que o trabalho estava me consumindo. Ele que foi freelancer a vida toda, não entendia muito bem o conceito de “ficar atolado de trabalho” e não ser dono do seu próprio tempo, então sempre ficava levemente chateado fazia um drama que não conseguimos nos ver. Tem também o transtorno bipolar no meio – tenho fases que não consigo sequer ver pessoas e isso acontece constantemente. Tudo é motivo: estou com fome, preciso trabalhar, efeitos colaterais de remédios, falta de dinheiro, ou até mesmo porque preciso lavar a louça.

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Eu e O Amigo nos conhecemos há alguns verões. Próximo ao natal ele decidiu dar uma festa, um amigo em comum me convidou e como não tinha nada a perder (e era final de ano, então tudo podia) logo estava lá. Desde então encontramos interesses – e 100 amigos no facebook – em comum, o que nos aproximou mais ainda porque sempre tinhamos do que/quem falar. Com o tempo, acabamos saindo cada vez mais, principalmente pra baladas. Quando estávamos entediados e sem dinheiro, ficávamos em casa igual dois adolescentes apenas nos drogando e bebendo.

A amizade evoluiu tanto que éramos figurinhas carimbadas da noite paulistana – se um estava na balada, perguntavam do outro, o convite pra festas chegava (ou não) para os dois, se um era vip, o outro também. Os dealers de cada um já conheciam o outro, o porteiro já deixava subir sem anunciar e até dormíamos na mesma cama sem segundas intenções. Nessa época eu já estava começando a sair das drogas e álcool com sucesso. Já no começo da rehab fiquei três meses sem nenhuma substância. Mas como eu ia continuar nessa quando só conhecia meus melhores amigos só bêbado ou drogado?

Meu psicólogo precisou dar alguns tapas na minha cara pra que eu começasse a perceber que o grande problema não era a dificuldade de ficar sem me drogar, mas sim os comportamentos e hábitos. Tudo que meus amigos faziam era se drogar. Sair para cheirar um final de semana, ir a um festival tomar balas no outro, basicamente eu não saia pra brincadeira pra ficar sóbrio. Também comecei a pensar quantos amigos eu já tinha visto sóbrio e me peguei contando nos dedos da mão. Foi nessa época que comecei a tomar decisões radicais na minha vida e isso que o diagnóstico nem tinha chegado.

Comecei a cortar todos os amigos com os quais minha principal razão pra sair era se drogar, ou seja, quase todos. Não dava pra manter hábitos tão insalubres quando se estava no terceiro remédio diferente, pensando em suicídio, lutando contra transtorno bipolar. Comecei a fase de solidão forçada, mas como dizem por aí, no pain no gain. Sem amigos, sem vida social, apenas eu tentando me reencontrar novamente. Quando estava finalmente começando a ficar tranquilo novamente, veio o diagnóstico.chat messages 11

Estava jogando essa amizade de alguns anos no lixo. A estratégia era começar a ignorar, já que amizade não é igual namoro que você fala “olha, acabou”. Cheguei a sair com O Amigo várias vezes enquanto estava em rehab, não foi legal e fui exposto a drogas e bebida gratuitamente, mesmo ele sabendo da situação e falando que ia me ajudar.

De volta aos dias de hoje, o almoço.

Era um belo sábado de sol, num bistrô pelas ruas de São Paulo e botando o papo em dia. Apesar dos pesares eu sempre gostei dele e rolava uma conexão, era só questão de tempo até eu falar que tinha HIV.  A decisão é grande e o segredo também.

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Fulano está ficando com ciclano pra cá, meu chefe está demitindo beltrano pra lá… Até que O Amigo começa a falar sobre um amigo em comum, de como ele é chato, e entre outras. Até que diz “-e você não sabe do pior, ele tem AIDS“. Sim, AIDS. O estado avançado do HIV.  Depois de ouvir essa, invoquei o ator que existe dentro de mim pra balbuciar um “- nossa, como isso foi acontecer?“. Mas este terceiro não foi tão comedido como eu e acabou contando da sua sorologia para as pessoas erradas. Por causa disso eu, uma pessoa que sequer viu a sua cara, sabia nome sobrenome e status sorológico, acompanhado de um relatório de ódio.

Não satisfeito, O Amigo continuou a contar uma história onde ele o irritou porque “não foi embora da festa na minha casa no momento certo”.  Depois da história ele completa – pasme – “-pensei em jogar na cada dele que era aidético, mas aí pensei de novo e seria indelicado“.

Esse foi um dos momentos mais marcante desde que fui diagnosticado – ouvir de uma pessoa que eu tinha um carinho tão grande falar mal de outra associando-a a “AIDS” e  depois quase usar isso contra essa pessoa no calor da emoção. Como se HIV desqualificasse alguém. Foi como receber uma facada.

Consegui manter minha poker face pelo restante do almoço, dei tchau e fiquei sozinho. Percebi então o que seria o mais difícil na vida de soropositivo daqui pra frente: o preconceito.

Alguns detalhes da história foram modificados para preservar o anonimato. 

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