Eu e o HIV

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Sou portador há vinte e oito anos. O HIV entrou na minha vida pela porta da frente. Não bateu e nem pediu licença, simplesmente foi entrando e se acomodando. Convivemos juntos até hoje. Da minha parte, estamos nos dando muito bem.

Infelizmente, não aconteceu o mesmo com meu primeiro companheiro. Tive um relacionamento de quase dez anos com ele. Foram altos e baixos, brigas, lutas, amor e também desamor da parte dele. Sempre tive esperança de vencer todos os obstáculos até que, prestes a completar quatro anos, entrou este “bichinho” nas nossas vidas.

Foi através de uma internação do meu companheiro que tive o primeiro contato com o vírus. Foi a noite mais horrível de minha vida. Por incrível que pareça, a noite estava simplesmente maravilhosa. Acredito ter sido também o meu primeiro contato direto com Deus.

Quando saí do hospital onde estava meu companheiro, olhei para cima e vi uma imagem maravilhosa: um Céu repleto de estrelas, coisa cinematográfica. Nunca tinha visto algo tão grandioso e lindo. O brilho das estrelas ofuscou minhas lágrimas e clareou meu coração. Neste momento, perguntei a Deus: “Porque Nós? Porque Eu? Porque meu companheiro?”.

A pessoa que eu tanto amava estava fugindo pelas minhas mãos como areia. Lutei tanto, contra tudo e contra todos, para simplesmente acabar assim!! Pedi a Deus para que me concedesse a graça de eu também estar com o vírus; já que pedir a ele que o livrasse do vírus seria tarde e não tinha mais volta.

A doença já havia se manifestado e os remédios e o tratamento na época eram difíceis e totalmente precários. Chorei muito. Fiquei triste, mas em momento algum fiquei chateado com Deus. Ele nos deu a vida e o livre arbítrio. E eu escolhi seguir este caminho. Então pedi força para suportar tudo que viria pela frente e seguir adiante.

Dois dias depois fiz os exames e foi confirmado que eu também era portador. A diferença era que eu não tinha AIDS. Mesmo assim já me bastou para ficar ao lado de meu companheiro, mostrando a ele que estávamos no mesmo barco, que a tempestade era longa e caberia a nós remarmos juntos para não morrermos ali, sem fazer nenhuma força. Afinal, com dois remando tudo fica mais fácil e a esperança de chegar em terra firme era maior. Continuei lutando, tendo esperanças e procurando passar dignidade para meu companheiro.

Por momento algum saí de perto dele. No dia em que ele me contou que estava doente de AIDS, jurei de joelhos na sua frente que nunca o deixaria. Disse que morreria por ele e em último caso morreríamos juntos – não pelo fato de ele ser meu companheiro, mas por ser a pessoa com quem aprendi ser homem.

Devo a ele tudo que sou: a força, a garra, a coragem e a esperança. Foi com ele que aprendi a lutar pelos meus ideais. E, naquele momento em que estava vulnerável, deixa-lo, não. Não foi o que ele me ensinou e também tenho a certeza que ele não faria isto se ele estivesse no meu lugar. Com todos os problemas, todas as noites, sempre agradecia a Deus por mais um dia e se fossemos merecedores, que nos concedesse mais um… E assim por diante.

Da descoberta até sua morte passaram seis anos. Neste período, não deixei de ter fé por nenhum minuto e a medida que o tempo passava, Deus ia me respondendo aquelas perguntas que fiz lá atrás… Por que nós? Por que eu? Por que ele? Foi para me mostrar um outro lado da vida; me tornar mais humilde perante as pessoas e os obstáculos. A doença me fazer prestar mais atenção aos problemas dos outros antes de me queixar dos meus; reclamar menos, sorrir mais; pedir só aquilo que eu possa carregar; olhar a natureza ao meu redor, sentir a brisa, o vento a chuva o sol e dizer em alto e bom som… Deus está presente!

Mesmo com tudo isto, ainda estou aprendendo. Com meu atual companheiro, sou mais flexível. Não posso achar que ele é meu. Prendê-lo e vigiá-lo só faz mal a mim mesmo. Não somos donos de nada, nem material e muito menos espiritual. Quando retornarmos de onde viemos, deixamos tudo para trás. Até nossa matéria (Corpo), não é nossa, é uma roupa que ficará quando retornarmos para casa eterna.

Ultimamente procuro me vigiar, segurar e auto analisar antes de falar algo. Procuro ser feliz hoje, pois o amanhã a nós não pertence. Continuo pedindo a Deus mais um dia e nunca deixando de agradecer pelo dia que passou e por tudo que ele tem me ensinado. Agradeço pela força, pelos amigos e também por ter colocado em minha vida meu atual companheiro Édson, o meu Little, como o chamo carinhosamente. Ele faz por mim o que eu fiz pelo meu primeiro companheiro. Felizmente não estamos no mesmo barco, ou seja, ele não é portador.

Espero e peço a Deus que ele nunca tenha a mesma intimidade com o HIV. Ele já abriu mão de muitas coisas boas na vida dele para ficar ao meu lado. Vai comigo em minha médica e com paciência presta atenção na consulta como se ele fosse o paciente. Não tem vergonha de buscar os meus remédios; acompanha-me de cabeça erguida nos meus exames e quando digo a alguém que sou portador, ele me apoia e compra qualquer briga para me apoiar. Ele sabe mais sobre os meus remédios do que eu. Lê atentamente as bulas para saber sobre os efeitos colaterais, controla meu colesterol, meu CD4, minha carga viral e vibra quando os exames apresentam bons resultados, pois para ele é uma grande vitória com louvor.

Temos muitos guerreiros ao nosso lado. O coquetel, que hoje é bem mais diversificado e com mais possibilidades de combinações de tratamento, assistência de planos de saúde, profissionais se aprimorando dia-a-dia sobre o assunto. Com tudo isso, felizmente, continuo não tendo a doença apenas o vírus. Mas como nem tudo é perfeito, tem um grande vilão que é o efeito colateral. Como as drogas estão mais fortes, nos prejudicam mais. Temos que combater os efeitos com outras drogas, é horrível mas é a solução.

Um dia um amigo me perguntou como é ser HIV positivo e eu o respondi assim:

Sou portador a muitos anos e para mim já é normal. Felizmente sou assintomático e nunca tive nenhuma doença oportunista. Fora o coquetel, tenho uma vida normal e sem neuras. Percebo que a melhor maneira de lutar é me aliando ao vírus do HIV. Converso muito com ele e até o chamo de amigo invisível. Acredito que ele tem medo de mim porque sempre digo que não seria nenhuma vantagem se eu morresse, pois se eu morrer, ele também morreria.

E continuei: “Combinamos de que eu tomaria alguns remédios só para fortalecer ‘o nosso corpo‘”.

Longe de mim querer eliminá-lo, pois com ele eu aprendi muitas coisas boas. Aprendi a dar mais valor a natureza. Reclamar menos, agradecer mais. Não ter pressa. Viver cada dia como se fosse o último e acordar no outro, feliz por não ter sido. Ficar encantado com o pôr do sol e maravilhado com o seu nascer. Com uma borboleta voando, com as flores, a chuva, o vento, enfim, como tudo é simples e ao mesmo tempo valioso para o nosso dia-a-dia. Como eu poderia ter coragem de exterminar uma coisa tão “insignificante”, monstruosa e, ao mesmo tempo boa por ter me dado esta nova chance de rever meus conceitos? Acho que é isto, ser HIV positivo é como diz a palavra: Hoje Irei Viver Positivamente…

Este é um pequeno resumo de minha trajetória com o HIV. Minha vida atual e tenha a certeza que sou muito feliz, por tudo que passei e por ter como prêmio este anjo ao meu lado que se chama ÉDSON.

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.

Charles Chaplin

-Toni Correa Costa

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